Erfan Soltani, de 26 anos, preso durante as manifestações contra o regime iraniano, deve ser executado nesta quarta-feira, segundo organizações de direitos humanos que acompanham a repressão no país. A família foi informada da execução, mas não recebeu detalhes sobre julgamento, acusações formais ou direito de defesa.
De acordo com a Organização Hengaw para os Direitos Humanos e outras ONGs internacionais, Soltani foi detido na última quinta-feira, na cidade de Karaj, nos arredores de Teerã. Desde então, o caso avançou em ritmo incomum, levantando alertas sobre execuções sumárias ligadas à onda de protestos que se espalha pelo país.
“Nunca vimos um processo avançar tão rapidamente”, afirmou Awyar Shekhi, da Hengaw, em entrevista à BBC. Segundo ele, o governo iraniano tem acelerado punições como estratégia para intimidar a população e conter as manifestações.
Prisão sem acusação formal e ameaças à família
Relatos obtidos por entidades como Iran Human Rights (IHRNGO) e pelo site IranWire indicam que Soltani ficou detido sem acesso a advogado e sem que nenhuma audiência judicial fosse realizada. A família passou dias sem saber seu paradeiro e só foi informada posteriormente de que ele já havia sido condenado à morte.
Ainda segundo essas organizações, parentes teriam sido ameaçados por agentes de segurança para não falar com a imprensa. Em um único encontro autorizado, de cerca de dez minutos, autoridades deixaram claro que se tratava de uma despedida antes da execução.
Uma fonte próxima à família relatou que a sentença imposta seria por “Moharebeh”, termo usado pelo regime para acusar opositores de “inimizade contra Deus”, classificação que permite punições extremas e sem possibilidade de recurso.
Protestos, apagão de internet e números incertos de mortos
A possível execução ocorre em meio a um cenário de repressão generalizada. Desde o fim de dezembro, protestos se espalharam por mais de 100 cidades e vilas em todas as 31 províncias do Irã, inicialmente motivados por dificuldades econômicas e, depois, transformados em um movimento amplo de contestação ao regime teocrático.
O governo impôs um apagão quase total da internet, dificultando a verificação independente dos acontecimentos. Mesmo assim, relatos que conseguem sair do país falam em níveis elevados de violência. Moradores da cidade de Rasht, no norte do Irã, descreveram áreas inteiras destruídas por incêndios e confrontos.
Estimativas conservadoras apontam ao menos 650 mortos. Uma fonte do governo iraniano, ouvida sob anonimato pela agência Reuters, mencionou cerca de 2 mil vítimas. Já organizações internacionais projetam números ainda mais altos, com até 6 mil mortos e cerca de 10 mil pessoas detidas desde o início da repressão.
Alerta internacional
Entidades de direitos humanos afirmam que o caso de Erfan Soltani pode ser o primeiro de uma série de execuções ligadas aos protestos. Para o diretor do IHRNGO, Mahmood Amiry-Moghaddam, há risco real de execuções em massa e extrajudiciais.
Grupos internacionais cobram uma reação da comunidade internacional diante do que classificam como graves violações de direitos humanos, enquanto o regime iraniano mantém o silêncio oficial sobre o caso específico de Soltani e sobre o número real de mortos e presos.



