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Oiapoque: expectativa de exploração de petróleo acelera migração e pressiona infraestrutura

Mídia Povo
Oiapoque: expectativa de exploração de petróleo acelera migração e pressiona infraestrutura
Foto: Uesclei Costa
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Na fronteira mais ao norte do país, Oiapoque (AP) vive uma rápida transformação impulsionada pela expectativa de exploração de petróleo na Margem Equatorial. Mesmo antes de qualquer confirmação de viabilidade econômica, a cidade de cerca de 30 mil habitantes já enfrenta aumento populacional, alta nos aluguéis, expansão desordenada de bairros e pressão sobre serviços públicos.

A movimentação ganhou força após a Petrobras iniciar, com autorização do Ibama, pesquisas em águas profundas a cerca de 150 quilômetros da costa. Embora a perfuração tenha sido interrompida em janeiro por causa de um vazamento de fluido operacional — sem data definida para retomada —, a simples possibilidade de royalties inéditos para a região tem atraído migrantes de outros municípios, estados e até do exterior.

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Migração de retorno e novas apostas

Entre os que voltaram está a costureira Sheila Cals, de 69 anos, que passou mais de três décadas na Guiana Francesa. Ela decidiu se estabelecer novamente em Oiapoque movida pela expectativa de um ciclo econômico semelhante ao vivido por países vizinhos com a exploração de petróleo.

Histórias como a dela se multiplicam. Moradores relatam a chegada constante de famílias em busca de trabalho e oportunidades, alimentadas por projeções como a da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que estima que a exploração na Margem Equatorial pode elevar o PIB do Amapá em até 61% e gerar cerca de 54 mil empregos diretos e indiretos.

Ocupações crescem e cidade se espalha

A expansão urbana ocorre principalmente em áreas periféricas, próximas ao aeródromo e à BR-156. Bairros como Belo Monte, Nova Conquista, Areia Branca, Independência e Matinha surgiram ou cresceram rapidamente, em muitos casos sem infraestrutura básica, com ruas de terra, moradias de madeira e acesso precário à água.

Lideranças comunitárias estimam que centenas de casas foram erguidas apenas no último ano. Parte dos lotes é ocupada por famílias em busca de moradia, mas há também quem aposte na valorização futura para revenda.

Aluguéis sobem e comércio sente efeito

Com a chegada de trabalhadores ligados à Petrobras e de novos moradores, os preços dos aluguéis dispararam. Relatos apontam aumentos abruptos de um mês para o outro, além de reajustes expressivos em imóveis comerciais. Hotéis e estacionamentos também registram maior demanda.

Corretores locais avaliam que a especulação já provoca distorções no mercado imobiliário, com reflexos em cadeia sobre o custo de vida, inclusive nos preços de alimentos — historicamente elevados na cidade fronteiriça.

Pressão sobre serviços públicos

A prefeitura reconhece crescimento acelerado, embora não tenha uma contagem oficial da nova população. Dados da Secretaria Municipal de Educação indicam que, para 2026, há 807 novos estudantes interessados em vagas, o que representa um aumento de 16% na rede municipal. Medidas emergenciais, como abertura de anexos escolares, estão sendo adotadas.

No campo urbano, o município elabora seu primeiro plano diretor e conduz processos de regularização fundiária em áreas ocupadas há mais de uma década. Uma tentativa de reintegração de posse foi levada à Justiça, mas acabou direcionada para mediação, diante do caráter coletivo do conflito.

Base operacional e limites da Petrobras

Oiapoque tornou-se ponto de apoio logístico da Petrobras. O aeroporto foi reformado para receber voos fretados, de onde funcionários seguem de helicóptero para as plataformas em alto-mar. Em nota, a estatal afirma que sua presença gera impactos positivos, como emprego e aumento da arrecadação, mas ressalta que obras de urbanização não são de sua responsabilidade.

Expectativa, receio e incerteza

Enquanto os possíveis royalties ainda não se materializaram, cresce também a preocupação ambiental, especialmente entre comunidades que dependem da pesca. O temor de vazamentos convive com a esperança de empregos e desenvolvimento.

Para pesquisadores e moradores antigos, Oiapoque repete um padrão histórico de viver entre promessas de grandes projetos e frustrações. A diferença agora é a velocidade das mudanças, visível nas construções, no aumento populacional e na pressão sobre uma cidade que cresce mais rápido do que sua capacidade de se organizar.

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