A Prefeitura do Rio estuda a possibilidade de estabelecer preços padronizados para produtos e serviços oferecidos nas praias da cidade após a divulgação de cobranças que chegaram a R$ 850 na areia. A determinação partiu do prefeito Eduardo Paes, que acionou as secretarias de Ordem Pública e de Defesa do Consumidor para avaliar a viabilidade da medida diante de relatos de abusos durante o verão.
A discussão ganhou força depois de reportagem revelar valores elevados cobrados por estruturas e itens básicos em praias da Zona Sul e da Zona Oeste. Em resposta, Paes afirmou que toda atividade comercial na orla depende de autorização do município, o que permitiria a criação de regras mais rígidas para coibir excessos.
Segundo o prefeito, a iniciativa não contraria, em princípio, a lógica do livre mercado, mas se justifica diante do cenário observado nos últimos meses. Paes citou como referência cidades que adotam regras claras para o comércio à beira-mar e comparou a possível padronização ao modelo de tarifas reguladas aplicado aos táxis no Rio.
Cobranças elevadas na areia
A reportagem que desencadeou o debate mostrou que o aluguel diário de espreguiçadeiras chegou a R$ 100 em alguns pontos da Zona Sul. No Recreio dos Bandeirantes, o uso de um sofá montado na areia foi oferecido por até R$ 850. Além disso, banhistas relataram aumentos expressivos nos preços de bebidas e alimentos.
Diante dos custos, frequentadores passaram a adotar alternativas para economizar, como levar cadeiras, guarda-sóis e até despachar esses itens em voos para a cidade, evitando gastos adicionais na praia.
Reação da Orla Rio
Responsável pela gestão dos quiosques, a Orla Rio afirmou que não há possibilidade de tabelamento de preços. O presidente da concessionária, João Marcello Barreto, argumenta que os serviços seguem a lógica de mercado e envolvem produtos e estruturas distintas, o que inviabilizaria uma padronização.
Ele também ressaltou que cobranças elevadas, como valores próximos a R$ 800, costumam estar associadas à exigência de consumo mínimo, prática proibida tanto pelo Código de Defesa do Consumidor quanto pelo contrato de concessão. Segundo Barreto, consumidores podem acionar o Procon ou registrar denúncias nos canais da concessionária.
Calor, praias cheias e pressão social
O debate ocorreu em meio a praias lotadas e temperaturas próximas dos 39 °C, quando a cidade atingiu o nível 3 de calor. Na Barra da Tijuca, a diarista Nicilene Andrade relatou dificuldades para arcar com os custos do lazer, especialmente para famílias com crianças.
Ela defende que algum tipo de controle pode tornar o acesso às praias mais democrático, já que despesas com transporte, alimentação e itens básicos tornam o passeio inviável para quem tem renda mais baixa.
Preocupação dos comerciantes
Do lado dos comerciantes, a proposta é vista com cautela. Lucas Vieira, sócio do quiosque Bar do Gil, afirma que um eventual tabelamento desconsidera custos variáveis como impostos, salários e manutenção. Para ele, preços fixados pelo poder público podem limitar contratações e impactar a geração de empregos.
Vieira defende transparência como alternativa, com cardápios visíveis e informações claras para que o consumidor decida se quer ou não consumir. Segundo ele, o principal problema ocorre quando o cliente é surpreendido com valores diferentes dos esperados no fechamento da conta.
A prefeitura informou que os estudos ainda estão em fase inicial e que eventuais medidas só serão anunciadas após análises técnicas e jurídicas sobre o impacto da regulação na orla carioca.

